domingo, 1 de março de 2015

Respeito aos Romeos de Cada Dia

A capa da edição desse mês da revista Nova Escola me fez voltar a blogar depois de muito tempo. Chamou minha atenção pelo tema. Não, não é literalmente pelo menino vestido de princesa, mas pelo respeito que a gente deve a ele, e a muita gente. Precisamos discutir mais sobre outros Romeos, sobre nossas concepções de certo e errado, sobre nossa alienação em convenções sociais e muitas vezes religiosas, se bem que tenho minhas dúvidas de que quando teorias religiosas se intrometem em assuntos polêmicos, é muitas vezes, uma resposta pronta que buscamos como desculpa pra nossas próprias teorias pessoais, por isso as interpretações religiosas variam muito.

Romeo é um menino de 5 anos que gosta de se vestir de fantasias diversas "são fofas, bonitas e tem brilho" (não deveríamos nos interessar por quais são, fantasias são fantasias e não nos cabe o direito de saber por quê), mas foi impedido de usá-las na escola por "fugir de convenções socialmente aceitas". Foi proibido de frequentar até que " se vestisse de acordo com seu gênero".

O que é se vestir de acordo com seu gênero? Qual o problema de um menino achar bonito vestidos e princesa? O que a escola tem com isso? Em que prejudica o ensino? Qual a parte da aprendizagem que uma fantasia atrapalha? Se ele estivesse vestido de morte, ajudaria? Uma fantasia de jogador de futebol o torna mais inteligente ou mais menino ou mais humano?
Primeiro absurdo:
A escola proibir. As instituições de ensino não devem excluir e sim incluir, inserindo as crianças no mundo em qualquer que seja o contexto social, hoje as concepções de sociedade, família e seguimentos de vida estão amplos e diversificados. Deve agir com profissionalismo em dar a TODAS AS CRIANÇAS o direito de estudar IGUALMENTE.
Segundo absurdo: Isso é respeito ao ser humano, é respeito em saber que ninguém tem o direito de interferir nos limites pessoais de ninguém. " Ah, mas temos que engolir e aceitar isso??" Não. Nós não temos que engolir nem aceitar, justamente porque não nos cabe esse direito. O que é certo? O que é errado? O certo é você respeitar, não precisa aceitar, porque simplesmente não há o que aceitar já que não lhe diz respeito. O errado é você achar que o que você acredita e coloca como estilo de vida é o que todos devem fazer também.
Para ficar mais claro; para os não-cristãos, o direito à escola é para todos, independente de orientações sexuais, cor, raça ou religião, para os cristãos além de tudo disso, está na bíblia "Deixai vir a mim as criancinhas." Todas, Sem exceção. Sem fantasia ou com fantasia. Amarela, preta, branca ou rosa. Aos olhos de Deus somos todos iguais, em todos os sentidos. Assim como para Ele, o conceito de família é uma instituição composta por pessoas que se amam, se respeitam e que fazem dos filhos pessoas de bom caráter e bom coração. A questão de ser formada por homem e mulher  ou não, cabe a nós a interpretação(levando em conta quem interpretou, escreveu e época na qual foi escrita, com suas censuras e tudo mais.) portanto, é OPINIÃO e não imposição. E opinião...cada um tem a sua e ponto.
"A escola que deve abraçar as diferenças, pode ser o que mais oprime" disse Iana, uma ativista de 18 anos na entrevista.
Já percebi que muitas vezes a questão é "como explicar para os meus filhos" situações não-convencionais, já que acham que tem que ser só "é certo ou errado". Simples: respeite o espaço do seu colega em ser quem ele é. Sem explicações, sem complicações, porque nós adultos é que complicamos tudo, tenham certeza. Aos olhos de uma criança todos nós somos iguais, temos os mesmos direitos e o espaço é de todos.

Somente os tempos mudaram, nós continuamos os mesmos. A homossexualidade existe desde que o homem é homem. Os moradores na Grécia Antiga se relacionavam com pessoas do mesmo sexo, mas na idade Média os que o faziam morriam na fogueira. Hoje não há fogo, mas há outros tipos de violência.
Nossos conceitos não mudam porque existem regras a serem seguidas mais fortes do que o conceito de liberdade. Meninos não choram, meninas gostam de rosa e meninos de azul, meninos sentam de perna aberta, cospem e se coçam, meninas devem ser delicadas sempre. São conceitos passados de pai para filho, estão inseridos no nosso ambiente diário. Não que devemos fazer tudo ao contrário nem obrigar sua filha a andar vestida de azul e verde, mas questionar esses conceitos e educar nossos modos de ensinar e educar para a vida, levando em conta o que eles querem e o que eles podem construir sozinhos. E isso é bem mais complexo e difícil do que pensamos. O mundo hoje grita por respeito, por liberdade de ir e vir, grita por bondade e amor ao próximo, e quando ensinamos nossos filhos a viverem de acordo com determinadas regras, eles automaticamente excluem as outras possibilidades, excluindo também as pessoas que não vivem de acordo com o que lhe foi ensinado.
Poucas coisas são extremamente erradas e que degradam o ser humano, como as drogas e a violência. E a violência inclui suas diversas formas, como por exemplo a discriminação e a exclusão de alguém pela sociedade por formas não convencionais de viver. Exclusão no supermercado, num jogo de futebol, num shopping, no hospital, no parque, na escola, enfim, exclui uma vida social de pessoas que não são iguais a você.
É certo uma família convencional, formada por pai, mãe e filhos ser mais respeitada do que uma família de apenas uma mãe e filhos ou mãe, mãe e filhos ou pai, pai e filhos? Qual o direito que se tem sobre eles? O que torna a primeira mais especial  que as demais? Quais bases teóricas solidificam esses direitos? Religiosos? E para os não-religiosos? Cadê o direito e o respeito à individualidade e à escolha de cada um?
Então concordam também que se a primeira família tiver a violência doméstica como estilo de vida, que se a mãe deles apanhar do marido e bater nas crianças, educá-los afirmando que é certo espancar as pessoas, eles continuam sendo melhores do que as outras famílias que num exemplo, vivem em harmonia e ensinam seus filhos a ser pessoas de bem?
O ser humano gosta de aparências, gosta de convenções sociais, eles precisam de grupos e de teorias para se firmarem como cidadãos pensantes. Esse é o problema. Desde a escola aprendemos que o que o professora fala é o certo e não devemos discutir, afinal, está no livro, aquele que a escola ganhou alguma coisa para comprá-lo. E em casa também, "vamos apoiar o fulano de tal na política porque ele dá alguma coisa pra gente". E que "a gente precisa frequentar a clínica tal porque lá a gente passa na frente das pessoas porque conhecemos o médico", também "podemos burlar leis de trânsito porque meu pai tem uma boa posição no Estado". Essas são algumas das  pequenas corrupções que são transferidas de pai pra filho, são pequenas violências que nosso caráter sofre ao longo de anos e ninguém se dá conta e que corrompem nosso mundo, nossa liberdade e nosso respeito ao nosso próprio ego.

A escola precisa preparar seus profissionais para lidar com todos os tipos de grupos sociais, pois eles fazem parte de um grande e único grupo com os mesmos direitos que é o de ser Humano. Grupos feministas, machistas etc...só servem para separar os nossos direitos como um todo, para apontar o dedo no outro e jogar os erros sobre seus acertos. E o que mais precisamos é entender que nós  somos iguais, temos o mesmo direito a tudo e devemos respeito ao próximo, Simples assim. Sem ideologias, sem teorias, apenas respeitar o espaço do outro. A felicidade das pessoas está nos bons momentos, de paz, de harmonia e de boas recordações, não temos direito de tirar a liberdade de fazer tudo isso de ninguém. Como disse a mãe de Romeo, se, se vestir de princesa faz meu filho feliz, não me importo, ele está feliz. Isso serve para grupos maternos em que é proibido para as crianças, viver no mundo de princesas, pois elas estimulam a futilidade, a divisão de homem/mulher e um monte de outras baboseiras. Criança é criança, contos de fadas e mundos encantados fazem parte da infância e é uma violência privá-las disso ou de qualquer forma de brincadeira saudável. O que nós vemos não é igual aos olhos delas, elas enxergam mais simples e mais natural, talvez Romeo um dia descubra que não é mais interessante nem legal fantasiar-se de princesa, talvez não. Deixem que ele se descubra, deixem que ele faça suas escolhas, isso não vai machucar ninguém.

As pequenas coisas boas da vida são feitas nos momentos que nós nos sentimos vivos e bem, e se sentir vivo faz parte de estar inserido num grande grupo familiar, nosso grupo de seres que pensam, raciocinam e tem a capacidade de educar. O único grupo que deve existir nessa espécie.